A dinâmica do comércio internacional atravessa um período de transição profunda, onde as métricas tradicionais de eficiência dão lugar a novos imperativos de segurança e resiliência. Em análise realizada durante o Global Trade Summit 2026, em Campinas, Luciana Oriqui, Sócia-Diretora de Inteligência de Negócios do Grupo Serpa, acompanhou a palestra magna de Gustavo Bonini (FIESP/Scania), que apresentou uma leitura crítica sobre os vetores que redesenham o mercado global.
Reconfiguração, não Desglobalização: O Fim do Custo Mínimo
Um dos pontos centrais destacados pela executiva é a percepção de que o mundo não caminha para uma desglobalização, mas para uma reconfiguração estratégica. O comércio global tornou-se mais seletivo e regionalizado.
A pergunta fundamental que norteava as cadeias de suprimentos — “onde é mais barato?” — foi substituída por uma preocupação latente: “onde é mais seguro?”. Conforme aponta a análise de Oriqui, a lógica de escala global e estoques mínimos foi desafiada pela necessidade de redundância e proximidade. No cenário atual, uma cadeia pautada apenas pelo baixo custo é, inerentemente, uma cadeia frágil.
Os Três Vetores de Transformação Global
A reconfiguração das regras do comércio internacional é impulsionada por três forças que operam de forma simultânea:
- Geopolítica: Atua na reorganização de alianças e no acesso a mercados-chave.
- Segurança Energética: Consolidada como a variável crítica para a viabilidade industrial.
- Inteligência Artificial: A demanda por processamento de dados e infraestrutura elétrica deve triplicar o consumo de energia dos data centers entre 2025 e 2030.
A leitura técnica indica que a competitividade econômica agora reside na intersecção entre o poder de processamento e a disponibilidade de energia competitiva.
A Transição para o ESG 2.0: Segurança e Pragmatismo
O conceito de ESG (Environmental, Social and Governance) evoluiu de uma pauta reputacional para uma necessidade operacional. Luciana Oriqui ressalta a transição para o que Bonini define como ESG 2.0: Energy Security and Geopolitics.
Diferente da versão 1.0, focada em metas de longo prazo e narrativa corporativa, o ESG 2.0 exige soluções imediatas para a segurança energética e a resiliência das cadeias. O desafio das organizações em 2026 é promover a descarbonização sem comprometer a competitividade e a capacidade produtiva.
O Brasil como Ativo Estratégico na Crise Energética Global
Enquanto a Europa enfrenta vulnerabilidades severas devido à dependência de energia importada (58,4% em 2023), o Brasil posiciona-se como uma das raras nações com vantagem competitiva estrutural.
Com 88,2% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis e as fontes limpas atingindo 50% da matriz energética total, o país possui o que o mercado global busca desesperadamente. Segundo a análise apresentada no summit, essa matriz renovável deve ser tratada como um ativo comercial e diplomático, e não apenas como uma pauta ambiental. Biocombustíveis como o SAF e o biometano são agora instrumentos de segurança energética e competitividade industrial.
Logística e Acordos Internacionais: A Nova Fronteira da Decisão
No cenário de 2026, o comércio exterior e a logística tornaram-se indissociáveis. A logística deixou de ser uma área de suporte para ser o centro da estratégia: em um ambiente de riscos geopolíticos, a capacidade de rastrear, financiar e entregar com previsibilidade determina a margem de lucro.
Quanto ao acordo Mercosul–União Europeia, o entendimento é que ele transcende a redução tarifária. Trata-se de um alinhamento estratégico que estabelece padrões de sustentabilidade e regras de origem para uma zona de 700 milhões de consumidores. Contudo, Luciana Oriqui adverte que o ganho real dependerá de uma análise técnica profunda sobre classificação fiscal e compliance.
Conclusão: A Inteligência como Diferencial Competitivo
A reconfiguração global exige que as empresas abandonem o improviso em favor da governança e da arquitetura de negócios. Como conclui a análise de Luciana Oriqui, o próximo ciclo do comércio internacional será liderado por quem integrar geopolítica, logística e dados em seu núcleo decisório.
O Grupo Serpa atua justamente nesta intersecção, provendo a inteligência necessária para que a regulação e a estratégia transformem riscos em vantagens competitivas estruturais.
